Dossier de Exploração- 3ª Fase Tangencia(i)s- A Cozinha
A Cozinha- Síntese das ideias e memórias descritas no caderno de escrita
Neste espaço onde a comida predomina e a tecnologia tem o seu lugar, sou capaz de observar os diverso utensílios e objetos que o completam.
Ao localizar-me na cozinha, recordo ao olhar para o forno, uma história que me foi narrada anteriormente e que devido à falta de maturidade desenvolvida na altura, apenas tenho na minha mente uma sucinta imaginação do que poderá ter acontecido.
Apenas tinha três anos e vivia num prédio em Oeiras. Sempre fui bastante teimosa e curiosa, características muito bem conhecidas pela minha mãe... Foi neste sentido, que apesar de esta ter colocado duas cadeiras a frente do meu forno antigo, que tanto aquecia, que decidi impoleirar-me e deixar-me levar pela minha constante investigação. Neste seguimento, coloquei a minha mão no forno. As bolhas de ar envolveram a minha pele e imediatamente fui levada ao hospital.
Há já algum tempo que não relembrava esta história... admiro neste momento recordá-la, pois apercebo-me dos vestígios de curiosidade do meu ser que já no passado estavam presentes. Porém, na minha opinião, apenas na atualidade, é que estão a ser desenvolvidos devidamente.
É através da viagem a determinadas histórias (em que apenas me caracterizo por um ator inconsciente) e diversas memórias ,que compreendo o que me tornei e ambiciono me tornar.
Observo novamente o espaço físico da cozinha e atento o conjunto de diversos livros de receitas que se situam sob a televisão.
Revejo a minha avó paterna, que também já abandonou este mundo, uma excelente cozinheira e apreciadora de comida. Era mãe de dez filhos e avó de dezoito netos.
Quando nos juntávamos assaltávamos a sua dispensa, carregada de doces e iguarias fantásticas realizadas pela mesma. Contudo, éramos sempre descobertos nestas nossas rebeldias.
A nossa principal contumácia era feita enquanto a minha avó arrumava a cozinha depois do almoço. Era nesta ocasião que trepávamos pelas árvores ao telhado e roubávamos a fruta do jardim do vizinho.
Contudo, um dia o tal vizinho apanhou-nos neste processo diário, rapidamente queixando-se à minha avó.
No entanto, por grande espanto nosso, apercebemo-nos que esta senhora perspicaz já tinha conhecimento da nossa rebeldia à bastante tempo.
Lembro-me com bastante clareza das suas palavras que nos provocaram tanta surpresa quando referiu “Meninos vejam lá se da próxima vez não são apanhados, para não ter de fingir qualquer admiração. ” seguido de uma terna gargalhada afirmando “Não serão vocês assim com uma avó que ainda é pior!”.
A recordação deste momento de espanto permite-me relembrar esta fantástica senhora, que apesar de já idosa mantinha um espírito juvenil, em que a preocupação pelo agrado dos outros era inexistente. Foi um ser humano forte que lutou até ao fim, mantendo-se sempre indiferente aos dogmas da humanidade. Esta minha tão querida avó que influencia diariamente.
Porém, é apenas neste momento que me apercebo do efeito que provoca no meu ser, no meu desenvolvimento e crescimento. Neste sentido, ao rever esta personagem no presente, apercebo-me da minha nova atitude semelhante à da mesma. Concluo que já não sou capaz de não criticar as diversas superficialidades que consomem tudo o que me envolve, começando num processo de distanciamento dos dogmas que escravizam a sociedade, tal como a minha avó.
Em suma, é na cozinha que também consigo regressar ao um passado composto por alegria e curiosidade. Contudo, também sinto uma certa dificuldade em refletir neste espaço, algo motivado pela constante agitação que já lhe pertence.
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